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Matéria publicada em 27/02/2015.

28 de Fevereiro Dia Mundial de Combate as LER/DORT

Em 1713 o médico Bernardino Ramazzini, hoje considerado o PAI da Medicina Ocupacional, descreveu um grupo de afecções músculo esqueléticas entre as quais, a encontrada em escribas, que acreditava ele, ser pelo uso excessivo das mãos no trabalho de escrever. Esta doença que mais tarde foi chamada de “cãibra do escrivão” ou “doença dos escribas”, segundo Ramazzini era secundária a três fatores básicos que, em seu conjunto, influenciavam de maneira determinante o seu aparecimento, o sedentarismo, o uso contínuo e repetitivo da mão em um mesmo movimento e a grande atenção mental para não borrar a escrita. Caracterizava-se esta doença por uma sensação de parestesia de membros superiores acompanhada por sensação de peso e fadiga nos braços, podendo ainda estar associada a dores cervicais e/ou lombares. A última instrução normativa do INSS, 2003, usa a expressão LER/DORT para estabelecer o conceito da síndrome e declara que a LER/DORT não é fruto exclusivo de movimentos repetitivos, mas pode ocorrer pela permanência de segmentos do corpo em determinadas posições por tempo prolongado. A necessidade de concentração e atenção do trabalhador para realizar suas atividades e a pressão imposta pela organização do trabalho são fatores que interferem significativamente para a ocorrência das LER/DORT.

 A criação e reconhecimento do conceito de doença indenizável em meados dos anos 70/80, fez com que verdadeiras epidemias destas doenças começassem a ser descritas em todo o mundo.

 A nomenclatura Lesões por Esforços Repetitivos (LER) aparece no Brasil, pela primeira vez, no V Congresso Nacional de Processamento de Dados em 1984, pautada na luta do Sindicato dos Bancários do RS, com o intuito de reconhecimento do adoecimento desta categoria como lesões do trabalho.  O termo LER foi usado para designar um conjunto de quadros clínicos do sistema musculoesquelético caracterizado por sintomas como dor, parestesias, sensação de peso e fadiga. A partir da metade dos anos 80 os números de casos de LER cresceram de maneira assustadora, de tal forma que o INSS em sua publicação – Doenças Relacionadas ao Trabalho – Manual de Procedimento para os Serviços de Saúde, em seu capítulo 18 página 426, descreve: “No Brasil, o aumento da incidência de LER/DORT pode ser observado nas estatísticas do INSS de concessão de benefícios por doenças profissionais. Segundo os dados disponíveis, respondem por 80% dos diagnósticos que resultaram em concessão de auxílio-acidente e aposentadoria por invalidez pela previdência social.” O mesmo fenômeno pode ser observado nos CERESTs (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador).            Levantamentos do INSS indicam que o custo decorrente de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais para as empresas é de R$12,5 bilhões/ano.     

O crescimento do número de casos de LER/DORT, nos últimos trinta anos, pode ser atribuído ao processo de reestruturação produtiva que trouxe a precarização das situações de trabalho. Práticas de intensificação do trabalho e acúmulo de funções aumentaram a exposição aos fatores de risco para a saúde. Estas modificações das condições de trabalho, aliadas à instabilidade no emprego, mudaram o perfil de adoecimento dos trabalhadores brasileiros.

Diferente de outras doenças profissionais, a LER/DORT não respeita fronteiras profissionais, acomete várias categorias. O diagnóstico da LER/DORT é fortemente baseado na percepção do trabalhador sobre o próprio corpo e seu processo de reconhecimento abrange uma grande variedade de casos clínicos, podendo incluir a interação de patologias não ocupacionais pré- existentes e patologias ocupacionais. A origem multifatorial da LER/DORT é resultante do desequilíbrio entre as exigências do trabalho e as capacidades gestuais individuais

A problematização da LER/DORT está relacionada  a falta de especificidade dos sintomas, aliada à não-associação entre os diagnósticos médicos e o trabalho, dificulta a abordagem do paciente com LER/DORT. Na maioria das vezes, o profissional de saúde que atende o trabalhador tem dificuldades para conseguir as informações necessárias para completar o diagnóstico porque o empregador não cumpre a legislação ou as informações não são confiáveis. Devido a complexidade dos casos é comum que alguns profissionais cheguem a levantar a hipótese de ganho secundário ou comportamento exagerado do paciente diante da doença. Quando se mencionam fatores psicossociais fica a impressão de que algumas dores estariam apenas na mente dos pacientes. No entanto, os pacientes com LER/DORT enfrentam inúmeros preconceitos, até da própria família, além de grandes dificuldades de reinserção profissional e social. O processo doloroso na LER/DORT não segue um curso linear, nem possui estágios bem definidos. A sensação dolorosa é acompanhada de reações cognitivas e emocionais e, portanto, não deve ser analisada somente do ponto de vista fisiológico, pois envolve aspectos psicossociais e características individuais do trabalhador.

As LER/DORT representam um dos principais problemas de saúde pública que acomete os trabalhadores nas últimas décadas, sendo estas a segunda causa de afastamento do trabalho no Brasil. Os transtornos são comuns em diversas categorias de profissionais e as principais causas para seu surgimento são posturas inadequadas, movimentos repetitivos ou esforços por muito tempo. Dores musculares, cansaço, dificuldade para dormir, falta de concentração, queda na produção, insatisfação, desânimo são alguns dos sintomas. Os distúrbios mais freqüentes são as tendinites, as lombalgias e as mialgias. Esses distúrbios desafiam profissionais de diversas áreas do conhecimento científico, uma vez que se observa um aumento vertiginoso no número de casos. Logo, torna-se urgente que os profissionais busquem estratégias de intervenção eficazes para minimizar as conseqüências destas na vida e no trabalho das pessoas.

 

Luciane Sarturi Antes

Fisioterapeuta CEREST Missões/Ijui